20 dias de cortesia

(Este post é antigo e não havia sido publicado, estava perdido entre rascunhos, mas é engraçado, então tá valendo.)

Passei cinco minutos e vinte e cinco segundos ao telefone com uma atendente (muito simpática, por sinal) da Folha de S.Paulo, que me ligou para oferecer os famigerados “20 dias de cortesia” de entrega, já que eu, um dia, fui assinante do jornal.

Tive que me conter em vários momentos para não rir da retórica dela e, em vez de ser grossa e desligar, resolvi ir até o final para saber como ela tentaria me convercer a receber a cortesia. Seguem alguns trechos da conversa (mas esclareço que em nenhum momento fui grossa com ela e vice-versa):

Logo que ela me ofereceu a cortesia e confirmou meu endereço, eu a interrompi:

  • EU: Mas depois da cortesia, eu já não vou receber um boleto pra continuar assinando?
  • ATENDENTE: Não, se a senhora não quiser continuar a receber o jornal, basta nos ligar entre o 1º e o 10º dias para cancelar… (interrompo)
  • EU: Não, prefiro não ligar e não receber a cortesia.
  • AT: Mas a senhora não gostaria de receber o jornal diariamente em sua casa durante 20 dias… (interrompo)
  • EU: Não, obrigada.
  • AT: Mas por qual motivo a senhora não quer receber a cortesia?
  • EU: Eu não tenho tempo pra ler o jornal inteiro.
  • AT: A senhora pode levar o jornal pra qualquer lugar e…
  • EU: Eu sei, mas leio as notícias na internet.
  • AT: Mas a senhora pode ler o jornal em qualquer lugar. No ônibus, mesmo se senhora tiver um laptop, não dá pra ler as notícias no laptop dentro do ônibus…
  • EU: Dá, se eu tiver um modem 3G…
  • AT: Mas ninguém abre um laptop num ônibus, correndo o risco de ser assaltado, não é mesmo?
  • EU: É verdade…
  • AT: Então, a senhora pode ler o jornal no ônibus…
  • EU: Só não dá pra abrir o jornal…
  • AT: (risos) É, só se o ônibus não estiver lotado.
  • EU: Pois é, mas então, eu não gostaria da cortesia, obrigada.
  • AT: Mas a senhora não quiser continuar a receber, só precisa nos ligar… (interrompo)
  • EU: Não, eu não quero receber, já estou falando.
  • AT: A senhora costuma recusar presentes de amigos?
  • EU: Sim, se forem me dar trabalho…
  • AT: A senhora sabe que agora estamos trabalhando sob a “lei do 1 minuto”, então se a senhora nos ligar, um atendente irá atendê-la em um minuto… (interrompo)
  • EU: Não, mas eu não quero a cortesia…
  • AT: Que outros meios a senhora usa para se manter informada, fora a internet?
  • EU: Nenhum.
  • AT: A senhora é assinante do Uol?
  • EU: Não.
  • AT: Então, a senhora deve saber que tem matérias que são fechadas para assinantes… (interrompo)
  • EU: Eu tenho a senha de um amigo.
  • AT: Ahn. Mas não vejo motivos pra senhora não receber a cortesia.
  • EU: E eu não vejo motivos pra receber a cortesia.
  • AT: Mas não tem mais ninguém na casa da senhora que gostaria de receber a cortesia?
  • EU: Não, acho que não.
  • AT: Então tá bom, senhora Érica, obrigada pela atenção.

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

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Texto fabuloso (mais um!) de Eliane Brum. Aqui, na íntegra.

Bope tem 400 homens e apenas quatro mulheres. E uma delas é jornalista

Da esq. para a dir.: soldado Ana Paula, capitão Bianca, tenente Marlisa e sargento Ana. Foto: Daryan Dornelles

Da Marie Claire:

Elas são as únicas mulheres entre os 400 homens do Bope, tropa de elite da Polícia Militar. Assim como os rapazes, sobem o morro, pegam em armas e negociam com traficantes. Mas, ao contrário deles, são vaidosas, adoram um esmalte colorido e não pedem para sair.

Ana da Silva, 43 anos, foi a primeira mulher a entrar no Bope, em 2001, depois de dez anos servindo no Batalhão de Choque da Polícia Militar. Casada há sete com um colega de farda, atua nos morros cariocas e no departamento de disciplina da corporação. Bianca Cirillo, 40, está na tropa há três, é psicóloga, casada e expert em negociação de liberação de reféns. Ana Paula Monteiro, 29, chegou há dois anos e meio, namora há seis com um dentista e cursa o terceiro ano de Engenharia Civil. Marlisa Neves, 29, é formada em Jornalismo, entrou na polícia há oito anos, no Bope há seis meses e cuida da assessoria de imprensa do grupo. Nenhuma delas fez o desumano Curso de Operações Especiais (aquele que aparece no “Tropa de elite I”), mas todas sobem o morro, sabem atirar e negociar com bandidos. Foram submetidas a duros testes de resistência física e psicológica até serem condecoradas sargento, capitão, tenente e soldado — assim mesmo, no masculino. É que, ao contrário da presidenta Dilma, elas não podem adotar o feminino nas patentes. Devem respeitar a regra oficial das Forças Armadas.

Leia a reportagem completa no site da Marie Claire. Matéria muito interessante!

Marceneiro resgata obras de arte jogadas no lixo pela USP

(…)

“Eles jogaram no lixo, estava tudo abandonado, mas eu achei um pecado porque na primeira chuva tudo se perderia”, diz o marceneiro, com um sorriso acanhado no rosto. Na coleção particular de Antônio, exposta em três paredes descascadas de sua casa, há peças dos séculos 19 e 20, reproduções originais francesas numeradas de artistas como Edgar Degas, Maurice de Vlaminck, Maurice Utrillo, Paul Gauguin e Maurice Utrillo. Há também um desenho original do cartunista paulistano Belmonte sobre os bandeirantes, que sozinho pode valer até R$ 10 mil. “Nunca achei que daria dinheiro, peguei do lixo só porque achei bonito. Mas agora estou pensando em vender, né, talvez dê para acabar a obra aqui da minha casa.”

(…)

Segundo o marceneiro, que trabalha há mais de 15 anos na USP, funcionários da instituição foram avisados várias vezes sobre as peças. “Uma vez, eu até levei as plaquinhas de metal que achei nos quadros, que falava sobre a autenticidade deles, mas ninguém quis saber de nada”, diz. “Falavam que era besteira, que era lixo. Só eu achei que não era lixo.”

Se a USP que é a USP reconhece e trata obras de arte desta forma… Tsc, tsc… Leia a matéria completa no Estadão.

João Montanaro no The Washington Post

Like any Brazilian boy of 14, Joao Montanaro loves soccer and video games, graphic violence and all.

But he also reads the newspaper for two hours a day and leafs though magazines at the local kiosk, his eclectic tastes running from Mad magazine to Le Monde Diplomatique. Then there’s his never-ending doodling — on loose pieces of paper, in his sketchbook and, lately, at Folha, Brazil’s biggest daily newspaper.

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Aí, sim, dá orgulho! Quando talentos brasileiros aparecem em matérias para o mundo ler, eu bato palmas! Em pé! Leia a matéria completa, escrita por Juan Forero, para o The Washington Post.

Alice no País das Maravilhas escrito por… Oscar Wilde?

Oi! Eu faço revisões de texto, tá?! Profissionalmente. E como meu nome não é Barsa, sempre que aparece alguma dúvida eu pesquiso os dados para não deixar aberrações como esta acontecerem:

Dica via RTs, que me lincaram pra cá.

A revista Época admitiu o erro na edição seguinte e a matéria online (disponível para leitura na íntegra) também foi corrigida.

Todas as Turmas do Mauricio de Sousa

Esta é mais uma superdica do @pauloback, um dos roteiristas dos Estúdios Mauricio de Sousa. Ele lembra deste pôster que mostra todas as turmas criadas por Mauricio de Sousa, e que foi publicado em uma edição da Superinteressante.

Fiz uma pesquisa e descobri que a matéria saiu na edição de fevereiro de 2004. Somente o texto está disponível no site, mas o Paulo publicou o superpôster no Twitter em tamanho bem grande, onde dá pra ler tudo o que aparece nos balões dos desenhos e ter uma visão geral de todas as turmas que saíram da mente do quadrinista mais amado do país.

Abra o pôster e lembre-se de cada lugar por onde esses personagens te levaram na infância: da rua de casa ao campinho, do sítio com seus animais ao espaço com seus alienígenas, da cavernas da era pré-histórica aos túmulos do cemitério, passando por florestas e aldeias indígenas. São os mundos que fizeram e ainda fazem parte da infância – e, por que não?, da vida! – de cinco gerações de brasileiros.

Mauricio de Sousa e suas turmas: eu sou fã.

Japão: um país que não se abate. Jamais!

Nas últimas décadas, nenhum país enfrentou uma sequência tão devastadora de tragédias quanto o Japão. Desde as bombas nucleares arremessadas contra Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra Mundial até os terremotos que ao longo dos anos produziram algumas das mais pavorosas cenas de destruição provocadas pela natureza, os japoneses parecem destinados a se defrontar com cataclismos como o tsunami de duas semanas atrás. Apesar da intensidade desses acontecimentos, o país sempre conseguiu se reerguer – e não há uma única exceção à regra. Historiadores deram até um nome para essa fantástica capacidade de recuperação. Trata-se do que eles chamam de “ethos” guerreiro, um código de conduta criado pelos samurais para ressaltar princípios como coragem, retidão e honra. Essas qualidades estão incorporadas ao espírito da nação e podem ser comprovadas em atos de bravura registrados nos últimos dias. O que dizer dos técnicos que tentam conter os danos nas usinas atômicas, a despeito dos riscos impostos à sua própria sobrevivência? Ou de voluntários que se apresentaram para ajudar na reconstrução de rodovias? Ou de famílias inteiras que, mesmo diante da ameaça da falta de comida e água, dividem o pouco que têm com estranhos? São exemplos como esses, de obstinação e disciplina, que asseguram que o Japão será reconstruído. E, novamente, em tempo recorde.

Matéria da revista IstoÉ. Leia o texto na íntegra aqui.